
Quando descobriu que suas duas vans Mercedez-Benz Splinter tinham sido furtadas da garagem da casa onde mora, em Corumbá (MS), o empresário Vilson de Souza Vilalva deduziu imediatamente que os veículos já estavam do outro lado da fronteira com a Bolívia. Depois de relatar o caso às autoridades bolivianas e contratar quatro policiais do país vizinho para acompanhá-lo na expedição – arcando com os custos de alimentação, combustível e hospedagem de todos durante a jornada – Vilalva encontrou os carros, pagou 12 000 reais por cada um e os levou de volta para o Brasil.
Foi para coibir casos como esse e, principalmente, para aumentar a arrecadação de impostos, que o presidente boliviano Evo Morales lançou, em junho deste ano, um controverso projeto de nacionalização dos veículos estrangeiros que circulam pela Bolívia sem documentos ou com a documentação irregular. O prazo para a legalização dos automóveis venceu na última segunda-feira, dia 7, quando havia 128.000 veículos inscritos no programa (o governo esperava 10.000). Desses, pelo menos 4.000 são brasileiros, a grande maioria roubado. Segundo a Polícia Federal, o número pode muito maior: até agosto, a PF havia analisado as informações referentes a apenas 30.000 veículos da lista. Faltavam 98.000.
Na sua maioria, os carros brasileiros circulam nas regiões de Puerto Quijarro, Puerto Suarez e Arroyo Concepción, cidades que fazem parte da principal fronteira boliviana com o Brasil, na região de Corumbá. A cidade, no meio do Pantanal, é a porta de entrada dos veículos brasileiros roubados que são vendidos no país vizinho.
“Um carro brasileiro na Bolívia, novo ou usado, vale menos da metade do que no Brasil”, explica o delegado Alexandre do Nascimento, titular da Polícia Federal em Corumbá. “Então, a quem interessa vender um veículo do lado de lá da fronteira? Só a um ladrão ou a alguém que esteja dando um golpe na seguradora, o que também é bastante comum”. Muitas vezes, os veículos são utilizados como moeda de troca na aquisição de drogas por traficantes.
O baixo preço dos carros na Bolívia se deve ao fato de o país não ter montadoras. Toda a frota que circula por lá é importada e os impostos sobre veículos automotores sempre foram pequenos. O governo de La Paz – ao contrário do governo do Brasil e da Argentina, por exemplo – permite a importação de carros velhos e usados, que chegam principalmente do Japão, da Coréia do Sul e da China. Como em seus países de origem esses veículos valem muito pouco, chegam à Bolívia a preços irrisórios depois de entrarem no continente pelos portos chilenos.Link


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