Toyota RAV4 2.0 4×2: em busca do terreno perdido
Enviado: 09 Mai 2013, 00:02

Como René Arnoux e Gilles Villeneuve no GP da França de 1979, Honda e Toyota alternam a liderança do mercado no segmento do sedãs médios, uma constante que chega a ser curiosa: um deles muda e assume a frente até que o outro apareça com uma novidade para retomar o topo das paradas. Dá um estudo de caso sobre hábitos de consumo.
Mas na categoria seguinte, na faixa de preço imediatamente superior, a Toyota e seu RAV4 nunca conseguiram superar o Honda CR-V. Pior: um dia uma dupla de coreanos chegou para jogar com um esquema ofensivo, e logo tornaram-se os novos sonhos de consumo dessa fatia do mercado. Agora a Toyota quer mudar essa história e aposta alto na nova geração do RAV4.
A estratégia é atacar com duas opções de motorização divididas em três versões. Nosso teste foi feito em percurso rodoviário com a nova versão de entrada, que deverá ter o maior volume de vendas. Ela continua com tração dianteira, mas o antigo motor 2.4 de 175 cv deu lugar ao 2.0 de 145 cv e 19,1 mkgf — semelhante ao do Corolla Altis, porém não flexível em combustível. Por R$ 96.900 ela vem equipada com rádio AM/FM com player de CD, conexão Bluetooth, porta USB e entrada auxiliar P2, computador de bordo, ABS, EBD e BAS, ar-condicionado manual, direção com assistência elétrica, vidros, espelhos e travas elétricas, sensores de estacionamento traseiros e duplo airbag frontal.
A versão intermediária é a 2.0 4×4, que custa R$ 109.900 e acrescenta à lista de equipamentos ar-condicionado de zona dupla, bancos e painel em couro, sistema multimídia com câmera de ré (mas sem GPS), chave presencial, aquecimento dos bancos dianteiros, ajustes elétricos nos bancos e bloqueio 50/50 do diferencial central. O topo da linha é a 2.5 4×4, que diferencia-se da 2.0 4×4 apenas pelo motor de 179 cv e 23,8 mkgf, e pelo teto-solar elétrico.
Por fora

Nesta nova geração o RAV4 descolou-se completamente de qualquer resquício off-roader das gerações anteriores, começando pelo estepe, que saiu da porta traseira e entrou no porta-malas. Na verdade, se você acompanhar a evolução do RAV4 ao longo de suas cinco gerações, verá que a cada atualização ele se aproximava mais do asfalto e do concreto, usando o verde e a lama como mera inspiração. O novo RAV4, portanto, deve ser encarado como crossover que não faz questão de sair do asfalto, apesar da sua capacidade 4×4 das versões superiores.

Além do estepe guardado no porta-malas, o novo estilo visual finalmente trouxe o RAV4 para o século 21, abandonando definitivamente a face característica adotada desde seu lançamento e suas releituras da 2ª e 3ª gerações. Sendo o primeiro modelo no País com a nova linguagem de design da Toyota, ele adianta o que veremos na próxima geração do Corolla. Ainda não dá para chamar de ousado, mas as lanternas traseiras salientes que formam a quina do carro e dão origem à linha de cintura fogem à regra conservadora da Toyota, dando uma personalidade mais forte ao carro, assim como a agressividade transmitida pela nova grade e faróis em “V”. Sinal dos novos tempos?

Por dentro
Apesar das cores escuras, o para-brisa inclinado ilumina bem o interior, aumentando a sensação de espaço sem jogar o motorista para trás, nem transformar o painel em uma mesa de jantar. A divisão horizontal do painel da geração anterior continua, mas de um jeito mais fluido, menos empilhado. As saídas de ar do meio do painel são diferentes das outras duas das extremidades, o que polui um pouco o visual assim como o antiquado e reduntante relógio logo acima do rádio.

É fácil encontrar a posição ideal para dirigir, mesmo sem os ajustes elétricos das versões superiores. Um arco para ajustar a distância do banco, uma alavanca para a altura e outra para o encosto. A coluna de direção é ajustável em altura — vai de baixa a muito baixa — e profundidade. O volante fica em posição verticalizada e tem aro com espessura adequada, com saliências para firmar os polegares. No fim você acaba na posição preferida das mulheres modernas: vendo o trânsito de cima em seu carro altinho.
Com o banco ajustado ao meu gosto, desci do carro, entrei no banco de trás e descobri que poderia viajar atrás de mim ou qualquer outro motorista de 1,85 m de altura. O banco traseiro é baixo como em um hatchback, mas não ofereça carona no lugar do meio a menos que o quinto elemento seja alguém muito pequeno — ali sobra pouco espaço para os ombros e pernas de um adulto. Imagino esse banco ocupado por dois adolescentes entediados/alucinados durante uma viagem de férias ou uma ida às compras.

Quanto ao acabamento, a base dos botões dos vidros elétricos e o console central tem é feita de plástico com textura que imita fibra de carbono — o que dá às peças um aspecto “meu-amigo-envelopou-pra-mim”. Temos ainda plástico pintado nos puxadores das portas, ao redor do quadro de instrumentos, no topo da alavanca de câmbio, no centro do volante e na borda do porta-copos (que vão acabar riscados por anéis, pulseiras, chaves e afins), borracha no painel — com uma imitação de costura na borda —, plástico emborrachado e tecido nas portas, e couro sintético no volante.

Também chama a atenção o isolamento acústico. Ouve-se pouco a rodagem dos pneus e o ruído do motor, e qualquer outro tipo de ruído externo soa muito abafado — seja o barulho do tráfego urbano ou as buzinadas da moto da equipe de apoio que tentou, em vão, nos avisar que havíamos errado o caminho.
Como anda

O RAV4 é o tipo de carro para aquele cara (ou mulher) que procura algo confortável, com ponto de vista elevado e maior altura de rodagem para encarar buracos e irregularidades do asfalto nosso de cada dia e não faz questão de sentir o carro na mão. Quem gosta de um carro mais comunicativo estranha a filtragem das informações sobre o que acontece lá fora. A suspensão calibrada para o conforto absorve bem as imperfeições e, junto com um entre-eixos relativamente longo (2,66 m), ajuda a minimizar os solavancos normalmente causados por ressaltos e lombadas. A mesma filtragem afeta a direção elétrica, um pouco leve para uma condução mais entusiasmada, mas adequada à proposta de conforto do RAV4.
O acelerador eletrônico tem respostas rápidas para provocar o kickdown e o torque é suficiente para uma aceleração rápida, e ultrapassagens seguras, ganhando velocidade sem reduções drásticas. Mas enquanto tudo isso acontece ouve-se o motor quase com a mesma intensidade que a rodagem dos pneus no asfalto. Na estrada, o câmbio automático mantém o motor girando baixo e deixa o carro um pouco solto, com uma boa faixa de torque pela frente, fazendo com que se ganhe velocidade sem perceber. É meio como ver um filme sem trilha sonora — você consegue compreender o enredo, mas não tem as nuances da música para influenciar as sensações.

Essa característica, contudo, não chega a ser algo negativo dentro da proposta do carro. A Toyota obviamente conhece as aspirações de seu público alvo e parece ter modelado seu carro especificamente para esse nicho do mercado. É um carro generalista, fácil de dirigir e passa a sensação de segurança e proteção/isolamento que algumas pessoas procuram com desempenho suficiente para atender o motorista desse perfil.
Bottom Line
No ano em que a Toyota ficou fora do segmento (2012) Hyundai ix35, Mitsubishi ASX e Kia Sportage consolidaram-se no topo da tabela ao lado do Honda CR-V, com números de venda jamais obtidos pelo Toyota RAV4 — que teve em 2011 seu melhor ano com 4.200 unidades vendidas. A aposta agora é alta: 800 unidades por mês, 9.600 no ano — o dobro do recorde de 2011.
Jogam contra o RAV4 a relação custo/benefício dos coreanos, em especial o Kia Sportage, que tem comportamento dinâmico mais empolgante e o visual mais elegante do segmento. O mesmo vale para o Hyundai ix35, que não tem o design elegante de Peter Schreyer, mas compensa com um pouco mais espaço interno e para bagagem. Neste quesito, contudo, o RAV4 dá um banho nos rivais: são 1.087 litros contra 951 do Hyundai e 740 do Kia.

Mas em quem a Toyota está mesmo de olho é em seu tradicional rival, o Honda CR-V, que parte de R$ 98.900 e, além de estar uma geração atrás do RAV4, tem pouco mais que a metade da capacidade do porta-malas (589 litros) e vem menos equipado na versão de entrada.
Ficha Técnica – Toyota RAV4 2.0 4×2 2013
Motor: quatro cilindros em linha, transversal, 1.987 cm³, 16V, cabeçote com duplo comando de válvulas (variável na admissão e escape)
Potência: 145 cv a 6.200 rpm
Torque: 19,1 mkgf a 3.600 rpm
Transmissão: CVT com sete marchas simuladas, tração dianteira
Suspensão: Dianteira do tipo McPherson e traseira com braços triangulares sobrepostos e barra estabilizadora
Freios: Discos ventilados na frente e sólidos atrás, ABS/EBD/BAS
Pneus: 225/65 R17
Dimensões: 4,57 m de comprimento, 1,84 m de largura, 1,71 m de altura e 2,66 m de entre-eixos
Peso: 1.525 kg
Itens de série: rádio AM/FM com player de CD, conexão Bluetooth, porta USB e entrada auxiliar P2, computador de bordo, ABS, EBD e BAS, ar-condicionado manual, direção com assistência elétrica, vidros, espelhos e travas elétricas, sensores de estacionamento traseiros e duplo airbag frontal.
Cores: branco perolizado, prata metálico, cinza metálico, verde escuro metálico e preto metálico.
Preço: R$ 96.990 (2.0 4×2)
http://www.jalopnik.com.br/toyota-rav4- ... o-perdido/
Kevlar 









