DESIGNERS CONTAM COMO PROJETAM RODAS
Enviado: 14 Ago 2013, 20:44

Um tal de Chico Buarque diz que o mundo roda em instantes, na roda do coração. A roda viva, citada por ele na música homônima de 1967, é a culpada pelas mudanças da vida e pelas voltas que o mundo dá. E quantas voltas o designer dá para criar uma roda? Para entender o processo de desenvolvimento do acessório de beleza mais desejado pelos brasileiros, C/D conversou com os responsáveis pelas rodas de Chevrolet, Fiat, Ford e Volkswagen.
Em média, a de liga leve (feita da liga de alumínio, silício e ferro – trio que a deixa 20% mais leve diante da que só usa aço) exige um ano e meio de desenvolvimento, da criação à linha de produção. Um carro leva o dobro de tempo. Para o designer Marcelo Vaz, da Ford, “a inspiração para projetar uma roda surge junto com a do design do veículo. A roda precisa seguir o mesmo padrão de desenho estabelecido para aquele modelo.” A propósito, a questão da identidade familiar é unânime entre os designers.
Além do custo, outro fator limitante para a imaginação dos projetistas é o número de furos nas rodas, que varia de acordo com a potência do motor (quanto mais forte, mais furos). “Trabalhar com cinco parafusos é sempre o ideal”, afirma Guilherme Knop, da Volkswagen.

Design - Rodas
Volkswagen - Guilherme Knop (Supervisor de design)
“A VW usa uma linha de design bastante organizada. Todas as formas têm um propósito, uma função no veículo. Com as rodas não é diferente. Nas de 16 polegadas do Gol, por exemplo, os arcos foram inspirados nas ferramentas que encontrei pela fábrica, principalmente no cabo de um alicate. Os vincos arrastam o ar para o miolo da roda, o que melhora a refrigeração. Sempre desenvolvemos dois temas para cada roda e a escolha é feita pelos alemães, na matriz. O olho humano sempre enxerga primeiro o contorno das coisas, assim fica mais fácil trabalhar com desenhos que deem a sensação de profundidade na peça."

Design - Rodas
Chevrolet - Lamildson Rolin (gerente criativo de design)
"Em geral, temos a preferência de desenvolver rodas com cinco spokes (braços), que reforçam a esportividade do carro. Porém, nem sempre isso é regra. No caso dos sedãs, por exemplo, a estratégia de criar uma roda com vários braços gera outro apelo, o de maior sofisticação. Outro assunto importante é o tamanho correto das rodas em relação ao carro que afeta brutalmente a proporção e a estética. Em geral, as maiores são as preferidas. No Brasil, no entanto, enfrentamos limitações no uso de rodas de aro 18 para cima devido às más condições de nossas ruas. Ou seja, o risco de quebra da roda e esvaziamento do pneu é muito grande."

Design - Rodas
Ford - Marcelo Vaz (designer senior)
“A roda é o diferencial de cada carro. Há 20 anos não era assim. E a importância só aumenta. O novo Focus e o New Fiesta, por exemplo, evoluíram com o conceito Kinetic de design. A tendência de mudanças acompanhou todas as partes do automóvel, inclusive as rodas. A escolha do desenho da peça também depende muito do mercado onde o carro será vendido. Há países que privilegiam rodas mais brilhantes, outros, mais discretas. E o erro no desenho de uma roda pode ser fatal nas vendas de um veículo."

Design - Rodas
Fiat - Manuel Ferreira (designer)
“As rodas mais fechadas ajudam na aerodinâmica, mas prejudicam a refrigeração do disco de freio. As mais leves ajudam a aliviar peso, mas precisam de materiais mais caros, às vezes barrados pelo financeiro. É preciso conciliar estes requisitos. Com o tempo, os desenhos ficaram mais abertos e esportivos, isso vale também para as calotas. Em geral, as rodas estão maiores. Há também uma tendência estética delas saírem diamantadas de fábrica (processo que retira uma fina escama do metal, geralmente com pastilhas de diamante, que recebe envernização para aumentar o brilho.)"
As voltas que a roda dá
1 - Criação da estratégia gráfica de design e da forma. Varia de acordo com o número de braços, de frisos e do posicionamento do carro (de entrada, de luxo). A partir deste momento é criado o desenho.
2 - Os desenhos passam por testes e cálculos feitos em programas 3D. Assim que aprovados, começa o desenvolvimento das ferramentas para a fabricação das rodas. Ao contrário do carro, não é usado o Clay, mas modelos usinados.
3 - As primeiras unidades produzidas são então repassadas para que sejam feitos todos os testes físicos de validação. Aprovadas as rodas nesses testes, é dado o ok para a produção.
Calotas
Apesar de parecer mais simples, o desenvolvimento de calotas é tão trabalhoso e demorado quanto os das rodas de liga e pode demorar tanto quanto os modelos de ferro. “O processo para as calotas é praticamente o mesmo, mas é preciso respeitar a área de abertura para não aquecer a roda e o sistema de freio”, afirma Marcelo Vaz, da Ford. Manuel Ferreira, da Fiat, ressalta as mudanças que as peças de plástico sofreram com o tempo. “As calotas de hoje em dia deixam aparecer mais a roda de aço. No passado, a preferência era que ficasse escondida”. Para Guilherme Knop, da VW, o cliente exige que a calota tenha desenho tão bem elaborado quanto as rodas de liga e ressalta um agravante para a peça no Brasil. “Aqui, todas as calotas originais precisam de parafusos devido aos roubos e para evitar a perda das peças, isso também dificulta o desenvolvimento.”

Ford Edge
Futuro sobre rodas
O cladding, capas de plástico inseridas sobre o alumínio (utilizado na roda de 20” do Ford Edge), permite uma variação de desenho e acabamento na peça. “Há também o estudo para a utilização de carbono, mas o aumento no preço é alto”, afirma Lamildson Rolin, da GM.
http://caranddriverbrasil.uol.com.br/ca ... rodas/5729





