
por André Deliberato / Fotos: Marcos Camargo - publicado na edição nº 52 (abr/2012)
Grécia, 480 a.C. A jônia era uma das civilizações que relutavam em se submeter ao domínio do Império Persa. 300 soldados de Esparta, comandados pelo rei Leônidas, não aceitaram a rendição e partiram em ataque contra 120 mil persas no Desfiladeiro de Termópilas. Foram exterminados. Os 300, no entanto, entraram para a História pela bravura.
O que o massacre tem a ver com o novo Chrysler 300 C? Absolutamente nada. Mas achamos que poderia ser boa ideia citar o fato e nos inspirar no filme (“300 de Esparta”, de 2007) para esta avaliação.
O 300 C, de 2004, foi resultado da aliança Daimler/Chrysler, que durou nove anos, de 1998 a 2007. Um sedã ao gosto do americano, construído sobre a base do Mercedes-Benz Classe E da geração anterior. A plataforma foi mantida, mas o que temos aqui é um carro reestilizado com novos câmbio e motor, como veremos. O que interessa, por enquanto, é que o 300 absorveu do Classe E as técnicas do agogué, o treinamento militar que educava crianças espartanas com combates físicos: passa ao motorista a sensação de confiança pelo fato de existir, sob a carroceria, uma base sólida.

O estilo também transmite solidez. O vinco duplo que nasce na coluna C e desce até a lanterna realça os músculos cultivados no antigo 300. O que mudou foi o espírito. A cara de mau que marcava o carro anterior foi trocada por outra, mais suave. Os 5,07 m de comprimento e 1,90 m de largura (mesma medida de um BMW Serie 7) fazem dele um sedã executivo que se impõe no trânsito. As rodas de 18 polegadas têm desenho discreto em comparação com as anteriores e poderiam ser maiores – a caixa de rodas suportaria; a suspensão, no entanto, perderia curso. Culpa do campo de batalhas que é nosso asfalto.
Nos EUA, é vendido com cinco diferentes configurações – do 300, mais... espartano em equipamentos, ao 300 SRT, esportivo. Por aqui, a Chrysler só importará, por enquanto, o 300 C, completo.

Escudo
O que se vê por fora se repete por dentro: amplo espaço e algumas novidades em acabamento. É como se o lado interno dos escudos espartanos fosse revestido de borracha. Os plásticos que imitavam madeira foram substituídos por madeira de verdade. E a iluminação do console e do cluster abandonou o verde-água anterior e recebeu um azul que pode variar a intensidade em cinco níveis – de “camuflagem contra o inimigo” para “quero ser atingido por uma flecha”.
A tela de 8,4 polegadas no centro do painel atrai mais atenção que uma catapulta persa. Nela se configuram o som (com MP3, USB, SD e Bluetooth), os controles de ventilação e de ar-condicionado, navegador, celular e computador de bordo. Na ponta dos dedos. O ar-condicionado também pode ser controlado pelos botões abaixo da tela. Os porta-trecos são ao estilo americano: comportam um balde de refrigerante (e ainda podem refrigerar ou de aquecer a bebida) e quilos de batatas fritas.

Os R$ 45 mil de diferença entre um 300 C V6 2011 (R$ 134.900) e o novo parecem muito. E são, se você se lembrar de que, por R$ 179.900, preço pedido pela novidade já com aumento do IPI embutido, dava para comprar um V8 modelo 2011. A Chrysler justifica o aumento lembrando que a mecânica é mais moderna e eficiente e que o nível de acabamento evoluiu. Todos os comandos são elétricos e isso inclui as aberturas internas do porta-malas e bocal de combustível. E o som é Alpine, de nove alto-falantes e um subwoofer, excelente para se curtir um rap comportado. Motorista e carona são bem recebidos e, no banco traseiro, três adultos se acomodam sem entrar em conflito. O entre-eixos da nave é de 3,05 m. O porta-malas perdeu 42 litros, mas ainda leva muita bagagem.

Arsenal
No campo de batalha, o 300 tem adversários mais fortes e mais rápidos, mas não perde a bravura. O motor Pentastar e seu esquadrão de seis cilindros (usado na Town&Country e nos Dodge Avenger, Journey, Grand Caravan e Durango) têm fôlego para a briga e não exigem tanta bebida em troca: precisaria apenas de 4,1 litros de gasolina para atravessar os 56 km do Desfiladeiro de Termópilas.
A suspensão, independente nas quatro rodas, é ajustada para as grandes retas das estradas americanas e isso significa maciez extrema. Mas não apresenta batidas secas ao transpor valetas, por exemplo. Não é um carro ágil com sua direção desmultiplicada, mas o câmbio de oito marchas, da alemã ZF, e a tração traseira são boas armas.
Poderiam ser melhores. A dupla é atrapalhada por Efialtes, o traidor espartano que deu ao rei persa Xerxes as coordenadas para dizimar os 300 de Esparta. O câmbio é ágil e tem trocas rápidas, mas é limitado. É a mesma caixa 8HP45 da Amarok, mas com outro tipo de configuração. Se na picape tem recursos como trocas manuais e automáticas nos modos normal e esportivo, no sedã a caixa cumpre apenas o básico. Forçar reduções por meio do kickdown no acelerador é inútil. A tração traseira é a cavalaria pesada do 300, mas como o carro foi configurado para sair de frente, as escorregadas de traseira se tornam facilmente corrigíveis.
A batalha dos 300 contra o exército da Pérsia foi impiedosa. Mas a promessa de Leônidas, rei de Esparta, de fazer o imperador persa sangrar foi cumprida. O Chrysler tem adversários mais rápidos e poderosos. Mas a intenção da Chrysler com ele não é torná-lo o mais vendido ou o mais forte, mas a de que continue a defender o título de carro mais tradicional da marca. Para isso, ele está treinado e armado até os dentes.


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