
A Audi, a BMW e a Mercedes vêm dividindo a atenção dos fãs de carros europeus ultimamente, e isso não está certo. Os Audi A4, Classe C e Série 3 são tão comuns hoje em dia que deixaram de ser empolgantes como um dia foram. E mesmo que eles sejam todos tão bonitos e elegantes, eles são apenas o elemento moderno de uma linhagem evolutiva que se desenrola há mais de 30 anos. Mais do mesmo. Já a Volvo é diferente.
Desde que os suecos suavizaram o estilo “quadrado-mas-seguro”, não houve um único modelo sem graça. Alguns deles, como o S60 e o C30, em especial, são estonteantes. São meio como uma professora gostosa, já que a marca ainda é um símbolo de segurança.
Mas em vez de assumir esta imagem sólida e diferenciada, o ramo além-mar da Volvo parece inclinado em ser apenas uma alternativa sedutora aos genéricos alemães. Funciona? Não muito.
O C30 e o XC60 são os únicos Volvos que vendem em quantidades minimamente expressivas no Brasil, e ninguém na Mercedes e na BMW dá a mínima para seus rivais suecos. Além disso, a Volvo não tem o mesmo prestígio dos alemães no imaginário coletivo, mas seus carros custam praticamente o mesmo. Até os anos 90, eram comuns diferenças superiores a 30%. Nesse caso, por que eu deveria comprar um Volvo?
É essa a pergunta que o público-alvo da marca faz na hora de escolher seu carro, e talvez seja por isso que você encontre muitos Classe C, Série 1 e Série 3, mas poucos S60 e C30. Menos até que os modelos da época em que a Volvo ainda era uma fabricante de caixotes seguros e velozes – uma fase encerrada há distantes dez anos. Talvez isso signifique alguma coisa.
O Volvo 850/855 T-5R nunca quis ser um rival do BMW M3. Ele era apenas um exercício da excêntrica engenharia sueca (que ainda permanece viva em preparadoras e construtores independentes como a Vöcks, a Caresto e a Koenigsegg) praticado sobre uma base segura e confiável. E embora tenha desejado muito que a Volvo produza o S60 Polestar, ele já foi anunciado como “uma provável resposta sueca ao M3″, e isso não é bom.

Comparar a Volvo aos alemães é o caminho mais fácil, mas talvez não seja o mais eficiente. Quando se fala dos produtos de ponta da Alemanha e se faz comparações do tipo “uma resposta ao M3″, indiretamente se assume que o rival é a grande referência e você não. A Audi sabe muito bem disso, e é por esse motivo que dá o seu toque de personalidade com o sistema Quattro, e depois recheia seus carros com mais mimos aos ocupantes, apostando na razão para conquistá-los.
Essencialmente é este o caminho que a Volvo poderia seguir. É mais arriscado, porém, como em toda operação de risco, a recompensa em caso de sucesso será muito maior. Nesse caminho, a Volvo voltaria a ser a fabricante sueca que oferece carros ímpares, sem concorrentes diretos. A prova pode estar no modo que o público vê o C30.
O C30 tem sido até agora o Volvo de maior sucesso no país nesta nova fase da marca, e não foi apenas por que ele custava mais barato que o BMW Série 1, o Mercedes CLC e o Audi A3. Ele fez sucesso pois é assumidamente sueco, com ergonomia exemplar, design sofisticado e limpo. Todo o carro é um ícone do design escandinavo, do console central milimétrico à traseira de vidro. É Bang & Olufsen sobre rodas.

Mas você tem família e precisa de um pouco mais de praticidade, então o que a Volvo te oferece? O S60 T4, um rival direto do Mercedes-Benz C180. E aí surge o dilema: pagar pelo design do Volvo e conviver com a desvalorização e a menor presença da marca no país ou andar com um carro mais conservador, um pouco sisudo até, porém com a solidez e o prestígio de um sedã alemão? Para quem valoriza o design este é um dilema shakespeariano, mas para a maioria dos compradores comuns é causa ganha para o Benz. Ou para a BMW. Ou até para a Audi.
Talvez a similaridade dos preços seja apenas uma coincidência imposta pelo absurdo aumento do IPI para os importados, variação cambial etc, mas oferecer um carro do mesmo porte, com a mesma potência, mesmo desempenho e na mesma faixa de preço, não parece uma mera coincidência. Soa mais como um desafio viking.
A Volvo quer uma fatia do saboroso segmento superior – do qual ela sempre fez parte, que fique claro – e de quebra, ficar com uma imagem esportiva, algo que ela também sempre carregou consigo. Mas ao se comparar aos alemães com seu posicionamento no mercado ela renega sua personalidade tão fascinante, e acaba parecendo a menina nova da escola que está tentando ser como as garotas populares. A Volvo sempre foi uma criadora de tendências, e não uma seguidora.
Foi ela a primeira marca a pensar em fazer carros cada vez mais seguros, e ao lado da Saab popularizou o turbo em carros comuns 30 anos antes do mundo falar em downsizing. Eles também devem ter sido os primeiros a fazer uma perua de corrida. Que outra marca faria isso?

Os traços da personalidade peculiar da Volvo ainda estão bem vivos, apenas esmaecidos por uma estratégia baseada em uma estranha tendência mundial que generaliza os carros tentando transformá-los em alemães – perseguindo-os por serem benchmark, claro. Talvez as pesquisas de mercado indiquem que os consumidores gostam da solidez, da robustez e da confiabilidade deles, mas isso não significa que você deve tentar fazer com que as pessoas pensem que seu carro é tão somente assim.
A Saab foi uma vítima de uma estratégia equivocada da GM que ignorava a maior qualidade da marca, e por isso hoje ela já não está mais entre nós. A Volvo é agora o último bastião do excêntrico e genial design escandinavo de automóveis, que conseguiu conquistar o mundo com caixotes turbinados seguros e velozes. Depois de fazer isso, quem precisa seguir tendências?
Pare de correr atrás dos alemães, Volvo. O mundo automotivo não precisa de mais uma marca genérica, e sim de personalidade forte e autenticidade. Aquela que vocês sempre tiveram.
Jalopnik
















