
Fotos: Leo Sposito - publicado na edição nº 57 (set/2012)
Antíteses são saborosas, como tomar sorvete no frio, comer pizza adormecida de manhã ou fazer como nós: mandar São Pedro às favas e curtir a experiência de um conversível (o tipo de carroceria mais egoísta e divertido), não importando o castigo que possa cair do céu. Setembro é um bom mês para se declarar um dia mundial sem alguma coisa. Bem, nós declaramos o Dia Mundial Sem Capota. Quando? Você decide. E aqui, temos quatro belas sugestões de sem teto para você acelerar com os cabelos ao vento, faça chuva, faça sol: Mercedes-Benz SLK 55 AMG, Peugeot 308 CC, Mini Cooper S Roadster e smart Cabrio.

O silêncio da nevoada noite na Serra de Maresias é interrompido por urros como trovões, alternados com o ruído dos Pirelli P-Zero se agarrando ao asfalto úmido e gelado. Os urros são as reduções de marcha do V8 5.5 aspirado de 421 cv (60 cv mais que a geração anterior) e 40,5 mkgf de torque do Mercedes-Benz SLK 55 AMG. Seu teto está aberto. Com ele, abre-se uma experiência única: pilotar um roadster V8, sozinho, em total fusão com o ambiente.
Motor grande, ronco borbulhante e rouco, corpo diminuto, capô longo – pense em um Shelby Cobra alemão. Agora, adicione bastante luxo, tempere com a precisão dinâmica que o AC jamais teve e dê uma pitada do superesportivo SLS – respiros no capô e nas laterais, saídas de ventilação tipo turbina no painel e o novo estilo da dianteira. Bem-vindo à SLK AMG.

A névoa e a garoa continuam enquanto me esbaldo em uma sequência infinita de grampos. Os faróis bixenônio direcionais acompanham a ginástica no volante revestido de Alcantara. Suas respostas são ágeis e comunicativas, mas não tão afiadas e conectadas ao corpo como as do Mini. Como em todo roadster, estou sentado muito baixo e colado ao rodado traseiro. Com isso, as forças físicas agem de forma diferente no corpo – principalmente quando cutuco o acelerador e faço a sua traseira escorregar nas saídas das curvas. Mas cuidado: com entre-eixos curto (2,43 m) e torque digno de muscle car, é prudente não subestimar o pequeno monstro – desligar os controles de estabilidade e tração em piso molhado é algo tão seguro quanto praticar salto ornamental em uma cachoeira. Minha dica: use o mapeamento Sport. Para isso, é só apertar o botão ESP uma vez.

Dupla personalidade
Este cara oferece duas experiências bem distintas. Feche a capota (leva 20 s), use a programação Comfort do câmbio automático AMG Speedshift Plus (ela troca as marchas com giros baixos e de forma suave) e deixe o modo ECO4 ligado – com isso, o motor usa o Start-Stop em paradas de semáforo e desativa os cilindros 2, 3, 5 e 8 quando há pouca aceleração entre 800 e 3.600 rpm. Nestas condições, a marca fala em 11,9 km/l sob uso misto.
Agora, bote algum CD do Chet Baker para tocar e passeie sem pressa. Sua maior surpresa é a calibragem de suspensão: até chegar a Maresias, passei por ruas dignas de autódromo... Bósnio. A forma como ele filtrou o piso sem dar pancadas secas me deixou intrigado: este era o mesmo carro que eu dirigi pendurado nas serras durante o dia, de teto abaixado, câmbio e controle de estabilidade no modo Sport e ronco de Stock Car urrando a 6.800 rpm? Sim, era. É esta a segunda experiência do SLK AMG: desempenho digno de carro de track day sem as inconveniências de um. Seu potencial fratricida explica por que ele não recebeu os turbos que equipam os seus irmãos maiores – e, mesmo assim, ele dá um baile. Por isso, sinto muito CLS 63 AMG (testado na C/D 51:( você perdeu o título de meu Mercedes-Benz favorito.


Não vou te enganar: desde que criamos o Dia Mundial Sem Capota, torci para que despencasse uma chuva torrencial. E não pense que isso cancelaria a data – o toró deixaria tudo insanamente divertido. Mas as fabricantes não ficariam muito felizes e nossas respectivas mães, esposas e namoradas teriam muito trabalho com a gripe que pegaríamos. Então, me contentei com o frio ártico que fazia naquela manhã. E, obviamente, não dispensei o agasalho.

Fiquei com o Peugeot 308 CC, a segunda novidade mais recente entre os quatro conversíveis – a primeira é o Mercedes-Benz SLK 55 AMG. O francês chegou em junho por R$ 129.990 – sim, o preço é salgado – com recheio bastante interessante. Seis air bags, controle de estabilidade, bancos com regulagens elétricas e aquecimento, luzes diurnas em LEDs, sensores de estacionamento, rodas de 18 polegadas e outras bugigangas equipam este conversível.
O 308 me dava espaço para levar uma mochila nos bancos traseiros, um guarda-sol ou um cooler (isso se estivesse calor). Eu também poderia ter duas ou três modelos de biquíni, gritando com os cabelos ao vento – o Peugeot era o único do grupo que leva quatro pessoas em seus bancos de couro. Quem vai atrás vai apertado. Mas vai. Agora, o vidão mesmo é pra quem está acomodado nos dianteiros, do tipo concha: ótimo apoio nas curvas mais rápidas. E, por algum motivo, no Dia Mundial Sem Capota, uma estranha força gravitacional agiu sobre nossos pés direitos.

Instinto familiar
Toda marca precisa de identidade visual, algo que permeie toda a linha. Já o 308 CC precisa de um temperinho a mais na aparência. A parte traseira tem um belo desenho, mais bonito até que o do 308, porém, o CC é idêntico ao hatch quando visto de frente. Merecia mais distinção ali. Vale o mesmo para o interior: salvo o volante de base achatada, quase tudo é igual aos 308. Isso até acionar o botão da liberdade, que fica atrás do freio de mão.
O melhor de um carro conversível é que toda a atenção do trânsito é voltada para você. Pescoços viram, garotas gritam e os rapazes... Bem, alguns nos xingaram. Pode ser a cara de francês ou o belo branco perolizado, mas o Peugeot está bem na fita. Nas curvas, o controle de estabilidade me deixou seguro para desfrutar o máximo do motor turbinado 1.6 THP. Com 165 cv e 24,5 mkgf de torque, o coração do leão bate forte. Mas o câmbio automático de seis marchas corta seu impulso.
Para ter ânimo extra, pressiono o modo S: as marchas trocam em 4.500 rpm e os engates ficam mais rápidos. Na Serra de Maresias, pensava nas modelos com seus cabelos esvoaçantes – mas tudo o que ganhei foi uma bela dor de ouvido por causa da pressão atmosférica.


O dia começou como queríamos: feio. Nublado, frio e com ameaça de chuva, que acabou caindo quando chegamos ao primeiro posto da Rodovia Carvalho Pinto. Para nossa sorte, ela passou rápido, o que nos deixou baixar a capota dos carros. Era esse o cenário ideal para mostrarmos que qualquer dia se presta a ser Mundial. E Sem Capota, desde que se tenha a companhia certa. No meu caso, até poderia ter sido o Peugeot 308 CC com que cheguei à queijaria, alguns (bem, muitos) quilômetros à frente, mas o Mini Roadster provou que meu dia, até ali, estava só começando.

Ao contrário do Mini, que tem um banco traseiro só para constar (ou levar crianças, já que traz Isofix), o Roadster assume sua vocação e ignora os lugares atrás do motorista, eliminando-os. Só importa quem vai ao volante (e o carona). Sem o banco traseiro, dá para deixar o do motorista bem baixo (a melhor posição para curvas rápidas) e, se você for alto, lá para trás. Os trilhos deixam o banco correr até que suas pernas estejam bem acomodadas, com acesso fácil aos pedais. Aos do freio e do acelerador, já que o carro era automático. Ruim? Não neste caso, que conta com seis marchas e o motor 1.6 turbo de 184 cv e 26,5 mkgf para dar tempero à mistura.

Davi e Golias
Bem acomodado, tenho à minha frente só o conta-giros, que se desloca com o volante na hora de ajustar a altura e a distância da direção, e fica sempre bem no meio do aro. A velocidade aparece em um pequeno conta giros e no mostrador central. Estratégia para inverter a direção da mão inglesa para a nossa com poucos custos. E, honestamente, você nem olha para o tal velocímetro do meio – a não ser que precise usar o rádio. É como se o Mini dissesse de alguma forma que tem vidro elétrico, ar-condicionado e som, mas que você não deveria ligar para nada disso. Segui à risca o conselho subliminar.
O para-brisa baixo e inclinado do Roadster dá a entender que vai bater um monte de vento na sua cara em alta velocidade. Nada feito. Ele desvia o ar para cima e deixa só uma brisa roçar a touca de lã que usei para encarar o frio. E desvia rápido, como mostraram as curvas da estrada Mogi-Bertioga. O SLK 55 AMG tinha 421 cv, ou 2,3 vezes a potência do Mini, mas não conseguia dar muita distância. O bom acerto de suspensão e os freios potentes do Mini permitiam andar rápido sem ser preciso abusar do carro ou das leis da física. Mesmo nas retas, quando o Mercedes podia deixar qualquer um comendo poeira, a rapidez de resposta do motor e do câmbio do Roadster fazia até haver algum asfalto entre estes dois conversíveis, mas nunca tanto quanto seria de esperar. Com a vantagem de a capota recolhida me deixar ouvir o ronco bom do escapamento misturado ao som das quedas d’água da serra. Ou do mar bravo, já no litoral. Nublado, frio e com pingos de chuva vez ou outra. E eu não trocaria este dia por outro de sol nem para ganhar dinheiro.


Estou numa curva fechada para a esquerda, cercada por mata atlântica e neblina pesada. Os pneus começam a cantar. Não quero ficar para trás do comboio de conversíveis. Uma luz no painel do Smart cintila nervosamente: é a luz do controle de tração – estou abusando do pequeno. Carrego o pedal do acelerador e o Smart usa a eletrônica para concluir a manobra com equilíbrio. A carroceria balança a cada ajuste do ESP. E, para dar mais emoção, o entre-eixos curto, peso-pena e suspensão firme do Cabrio ressaltam cada imperfeição do asfalto. Um catalisador da realidade. Conforto? No Dia Mundial Sem Capota isso não é tão importante. Relevante mesmo é o turbilhão de ar gelado que invade a cabine.

Vento, suor e nevoeiro
Cheguei a pensar que este pequeno não deveria estar aqui. Ele é franzino e foi projetado para rodar em grandes metrópoles. Porém, após outra sequência de curvas fechadas, me flagro com um sorriso no rosto. O velocímetro marca um valor acanhado perto dos outros sem teto, mas a sensação ao volante é diferente. O Smart nessa viagem está se superando, suando para acompanhar a alcateia.
O motor turbinado de três cilindros acorda pra valer acima de 3.600 rpm e vai esgoelando até 6.000 rpm. Em um momento de empolgação, cheguei a colar no para-choque traseiro do SLK 55 AMG de 421 cv – mas aí o semáforo ficou verde e não vi mais o Mercedes-Benz. O câmbio automatizado é desajeitado até demais. Para atenuar os soluços, a dica é usar as aletas atrás do volante e aliviar a aceleração a cada troca de marcha. A Mercedes-Benz, dona da marca Smart, poderia atualizar o sistema automatizado: por pouco ele não azedou o dia comemorativo.

Tudo bem. Enquanto o V8 da AMG some na subida, posso admirar o nevoeiro que encobre a serra. A cobertura de lona pode ser recolhida ao comando de um botão, como um teto solar. Depois dá para desmontar as laterais e baixar os vidros. O procedimento dá trabalho, mas deixa o Smart com cara divertida. Começou a chover? Dá-lhe correria para pegar as peças no porta-malas e montar o teto. Com prática, dá para fechar o carro em um minuto.
Este Smart Cabrio acabou de sair do forno, com atualizações para a linha 2013. Os para-choques e saias laterais ganharam novo desenho. As versões turbinadas agora contam com tela de 5,5 polegadas touchscreen que comanda DVD, som, GPS, cartão de memória SD e Bluetooth. No porta-luvas há entrada USB e para iPod. O tecido do interior pode ser preto, bege-claro ou vermelho. As rodas de liga leve têm novo design. Até a lona pode mudar de cor. Ao todo são 72 combinações diferentes para levá-lo para casa. No Dia Mundial Sem Capota, o Smart Cabrio provou que estar no ambiente errado pode ser a coisa mais certa a fazer. E divertida também.


Fonte














