
“Parece um video game”. “É chato”. “Ele faz tudo para você”. “Não gosto”. É isso que as pessoas que nunca dirigiram um Nissan GT-R falam dele. Elas deveriam dirigir um. Porque elas estão erradas.
O GT-R já existe faz tempo, mas em 2008 ele se tornou a barganha do século. Naquele ano ele tinha 485 cv e era mais rápido nas retas e nas curvas do que qualquer outra coisa. E custava metade de qualquer carro com a mesma capacidade.
Agora, cinco anos depois, a potência subiu para 545 cv, mas o preço acompanhou. Agora ele custa US$ 105 mil (cerca de R$ 236 mil). Sim, ele ainda é mais rápido nas retas e nas curvas do que a maioria dos outros carros, mas não é mais a barganha de antes. Ainda é um carro impressionante em quase todos os aspectos, mas agora outras coisas vêm à mente quando você pensa nele.
Claro, ele vai de 0 a 100 km/h em absurdos 2,7 SEGUNDOS, mas o interior é bacana? Sim, ele pode transformar os músculos do seu pescoço em purê nas curvas, mas ele justifica o aumento do preço?
O GT-R é a síntese de um carro japonês. Ele tem tecnologia de sobra, tudo projetado pela Nissan, e fabricado em um galpão onde a tolerância a variações é próxima de zero.
Se um esportivo italiano é um exercício de paixão e um esportivo alemão é um tributo à precisão, então um esportivo japonês é a objetificação da tecnologia. E isto é o GT-R. É um esportivo que saiu do país que inventou o Walkman e nos deu o Super Nintendo. O GT-R é uma instituição tão japonesa quanto o sushi, o anime ou a Hello Kitty.
Então dizer que o GT-R é uma experiência digital está longe de ser um insulto. Talvez seja o maior elogio que se pode fazer a um carro. E o truque é que, se o GT-R é um carro digital, ele é diferente de qualquer outra coisa digital que você conhece. Você precisa dirigi-lo para entendê-lo.
Por fora

Meu GT-R favorito saiu duas gerações atrás. O modelo do meio da década de 90, o R33, era meu favorito. Ele não era sem graça como o R32, e não era exagerado como o R34. O R33 era na medida.
Então o que dizer do GT-R R35? Estou dividido. Ele é muito maior do que qualquer outo GT-R que veio antes dele, e o estilo faz o R34 parecer suave. Mas tem muito o que gostar nele.
Para um carro tão grande, ele até que não parece gigantesco. O estilo é exagerado, mas também parece justificado. Os faróis são verticais, acredito, porque foi assim que o túnel de vento os esculpiu. O teto cai para trás, e os vincos, respiros e buracos não estão ali por beleza. Eles estão ali por uma razão.
Só que, para um exterior tão funcional, ele me decepcionou em alguns aspectos. Na lateral há um emblema GT-R em um respiro falso. A asa traseira parece ter sido cuspida lá depois de o carro pronto. E então temos os LEDs, adicionados à dianteira em 2012.
LEDs são legais quando usados da maneira certa. Aqui, eles parecem baratos, como se um dono de GT-R tivesse ido a uma loja de acessórios e achado as tiras de LED legais. Aí um executivo da Nissan viu os LEDs, percebeu que o carro não tinha LEDs, e disse aos designer que o carro precisava deles. Então os designers só jogaram uns LEDs ali. Façam o favor de tirá-los dali.
Por dentro

Alguns carros são como um terno Armani. Criações costuradas e finalizadas à mão, que fazem o motorista se sentir como se estivesse indo para a ópera. E aí tem os interiores que parecem shorts de ciclismo Pearl Izumi. Eles tem uma só função: melhorar o desempenho ao limite.
Mas o GT-R dá um jeito de bagunçar esta divisão. Ele é como shorts de ciclismo feitos de seda. Ele tem um cluster de instrumentos que se move com o volante quando você o ajusta. Todos os controles são voltados para o motorista. Os bancos têm o apoio correto, sem frescuras como massagem, climatização e outras frivolidades.
Mas agora o GT-R é um carro caro. Antes os donos não esperavam amenidades, nem mesmo forrações de qualidade. Agora eles exigem estas coisas.
Então a Nissan teve de começar a oferecer costuras à mão e couro natural no interior. Mas nada mais mudou em relação a 2008. É como colocar uma gravata borboleta em um guepardo. Ele continua com um desempenho incrível e não parece tão formal.
Como anda

O GT-R pesa mais de 1.700 kg. É um carro pesado. E isto aumenta ainda mais a surpresa ao saber que ele chega aos 100 km/h em 2,7 segundos. Dois vírgula sete. Due punto sette. Menos de três. Ele é mais rápido do que qualquer outro carro de rua, exceto o Bugatti Veyron. Ele faz o Lamborghini Gallardo parecer lento.
E a força não aparece só na largada. Digamos que você quer retomar de 60 a 120 km/h, o limite na maioria das rodovias. Ele faz em menos tempo do que você demorou para ler esta frase.
O carro nunca fica sem fôlego. É impossível. Sério. E isto sem falar do controle de largada, que é uma criação mística maravilhosa. Ele te cola no banco como se o Hulk estivesse sentado no seu peito. Um amigo meu disse que, depois de duas largadas com o controle, ele vomitaria se fizesse uma terceira. É impressionante.
Freios

Da mesma forma que a aceleração força os seus olhos para a lateral da sua cabeça como um tubarão martelo, as frenagens vão colocar seus olhos no painel. Literalmente. Use o cinto de segurança!
Os freios são quase perfeitos. O pedal é sólido, mordem na medida certa e exatamente quando você pisa. Nada muito fraco, nada muito agressivo. Na medida. Em alta velocidade, o Godzilla dá uma rebolada, mas no geral étudo bem sólido. Se o carro fosse mais leve, seria ainda melhor.
Suspensão

O acerto da suspensão é bem agressivo, o que na cidade não entrega muito conforto. Na verdade ele é mais firme do que eu me lembrava, mas eu só o testei na pista. O GT-R curte uma estrada suave, e o piso irregular o irrita.
Pela cidade de Manhattan é um pesadelo. O spoiler frontal é muito baixo e a suspensão é dura, o que transforma qualquer rua em um slalom. Fora da cidade grande o GT-R está em casa, especialmente com uma tocada mais espirituosa. A relação agressiva das molas fica mais à vontade e a suspensão mostra sua excelência.
Dinâmica

Chegamos àquela parte onde dizem que O GT-R não é divertido. Que você não se sente parte da equação. E eles estão certos, em partes.
No limite da via, o GT-R é bem chato. Você o está entediando, e ele entedia você. Um pouco acima do limite, mesma coisa. O problema é que os limites deste carro não podem ser alcançados na rua sem quebrar algumas leis e os limites da via. É a antítese do Toyobaru ou do Miata. Nestes carros, andar devagar é divertido. Aqui, não.
O que salva é a direção, que é direta e tem peso excelente. Não parece artificial. Isto por si só é raro de encontrar hoje em dia, porque os carros todos parecem ter um controle de PS2 no lugar do volante.
Agora, leve o GT-R para um autocross ou para a pista. Ele desperta. As curvas são precisas e o Godzilla fica neutro por toda a extensão. Lembra quando Jeremy Clarkson machucou o pescoço em um GT-R no circuito de Fuji, no Japão? Duvido que aquilo tenha sido encenado. O GT-R faz curvas melhor que uma montanha russa.
Mas ele tem um problema: mudanças de relevo. Se você contorna uma curva com uma mudança de elevação muito agressiva, o a transferência de peso pode deixar o carro bem instável. Se ele pesasse uns 150 kg a menos isto não seria um problema.
Câmbio

Quando saiu, o GT-R provavelmente tinha a melhor caixa de dupla embreagem do mundo. Agora, ela ainda é muito boa, mas não é mais a melhor. A PDK da Porsche e a S-Tronic da Audi tomaram o posto.
As trocas são rápidas e aconteciam no momento exato em alta velocidade, mas davam alguns trancos em velocidades mais baixas. Ela faz barulhos feios quando engata a primeira. E o carro precisa muito de uma sétima marcha, porque o zumbido em alta velocidade é terrível. Ainda é uma boa transmissão, mas não tão boa quando a da concorrência germânica. Dêem um jeito nisso!
Mimos

Em termos de mimos, o carro é como um Range Rover: ele tem tudo o que precisa para ser o melhor em sua categoria. A tela central mostra absolutamente tudo o que você precisa saber sobre as funções do carro, com uma interface gráfica assinada pela Polyphony Digital — aquela que fez Gran Turismo.
Ele tem um sistema de tração integral muito sofisticado que entrega quantidades inimagináveis de aderência. A transmissão, embora com alguns trancos, tem um software incrível e pode ser melhor no modo automático do que você seria com as borboletas. Os pneus são calibrados com nitrogênio.
O carro tem amortecedores ajustáveis, múltiplos modos de controle de tração, controle de largada e outros tipos de controle, e mais. E ainda vem com o básico: rádio por satélite, GPS, controlador de velocidade, mostradores reconfiguráveis. E mais.
É como uma loja de tecnologia japonesa. É incrível.
Áudio

O GT-R vem com som Bose com graves bem fortes. Não é terrível, mas também não é sensacional.
E então temos o GT-R em si. Lá dentro, quase não dá para ouvir o motor, só o som do ar entrando. É bem alto, mas não muito emocionante. De fora dá para ouvir um leve borbulhar, mas nada que vá incomodar as tropas inimigas. Parece muito com o ronco do Mitsubishi Evo.
Bottom Line

O Godzilla tinha desempenho de 911 Turbo com preço de Boxster. E isto é ótimo. Agora ele tem desempenho de 911 Turbo com preço de 911. Ainda é um bom negócio, mas ficou bem mais caro. Se você não liga para o interior, para o peso ou para as babás eletrônicas, o GT-R é basicamente o carro perfeito.
Eu o adorava quando custava US$ 70 mil, e ainda adoro, mesmo custando US$ 105 mil. É um dos maiores carros da última década. Simplesmente atordoante.
Ficha técnica
Motor: V6, 3,8 litros, turbo
Potência: 550 cv a 6.400 rpm
Torque: 64 mkgf a 3.200 rpm
Transmissão: seis marchas com dupla embreagem
0 a 100 km/h: DOIS VÍRGULA SETE SEGUNDOS
Velocidade máxima: 315 km/h
Tração: integral
Peso: 1.736 kg
Lugares: 4 (atrás é bem apertado)
http://www.jalopnik.com.br/impressoes-d ... gt-r-2014/










