
Segundo a sabedoria popular, quando um carro passa dos 100.000 km ele precisa ser vendido urgentemente sob a pena de se desmanchar nas suas mãos. Exageros à parte, o mito é até compreensível, considerando as condições das ruas, estradas e combustíveis que a maior parte dos carros encara no Brasil.
Contudo, um carro bem cuidado e com manutenção completa sempre em dia pode facilmente passar dos 100.000 km (ou dos 200.000, 300.000) sem problemas e seguir em frente por um bom tempo. O professor aposentado Irv Gordon, por exemplo, já passou dos 4.000.000 de quilômetros com seu Volvo P1800, que é o carro mais rodado do mundo segundo o Guinness Book, e até hoje só precisou fazer o motor duas vezes — uma delas por insistência de Irv, pois a concessionária disse que não seria necessário.

Outro carro famoso por sua alta quilometragem é o Porsche 356 1964 de Guy Newmark. Ele usa o carro diariamente e nesses 50 anos ele precisou ter seu motor refeito cinco vezes, e foi até roubado, mas continua firme e forte.
http://www.youtube.com/watch?v=7oxAjgq24Ts
A foto que abre o post, é do painel do meu carro. Tirei ela há pouco mais de um mês por causa da sequência de números, que só acontece duas vezes na história de um carro (a primeira foi aos 012.345 km, o que aconteceu há oito anos). Ele vinha muito bem até os 110.000 km, mas depois de duas mudanças de casa e um ano passando diariamente quase 90 vezes por lombadas, os amortecedores já estão pedindo uma merecida aposentadoria. Uma pena, pois eu esperava passar dos 150.000 km com eles. Também precisei trocar a embreagem original, não por desgaste, mas por que um pedaço do material de atrito se desprendeu do disco. Talvez seja consequência de um punta tacco errado, mas talvez seja só azar.
O resto do carro vai muito bem. Os vidros não têm riscos, o couro tem seu cheiro natural, as lentes dos faróis ainda são reluzentes e a pintura brilha quando encerada, embora tenha sido riscada por gente que não respeita a propriedade alheia. Mesmo assim, se eu fosse vendê-lo teria que pedir um valor bem abaixo da tabela devido à sua “alta quilometragem” — embora o mercado esteja cheio de carros que passaram pelo “túnel do tempo” com preços mais elevados. Coisas do Brasil, enfim.
A definição de “alta quilometragem” varia de acordo com o país e o tipo de carro. Um motor diesel de 90.000 km é considerado pouco rodado mesmo no Brasil. Na Europa, considera-se alta a quilometragem acima de 200.000 km, enquanto nos EUA carros com 100.000 milhas (160.000) são aceitáveis e o receio com quilometragem venha só acima das 150.000 milhas (240.000 km).

A alta quilometragem também é relativa ao tipo de uso do carro. Você acha mesmo que um carro que rodou 50.000 km nesse trânsito aí de cima está mais conservado que um carro que rodou 120.00 km em rodovias? Ele rodou toda a sua vida em condições ideais de funcionamento — temperatura ideal do óleo, do fluido de arrefecimento, aceleração constante etc — enquanto o urbanóide ficou ali, parado, sem refrescar seu motor, com água e óleo chegando com frequência perto de temperaturas críticas. Claro, isso é um forte motivo para desvalorizar os carros com alta quilometragem, mas quando foi você quem colocou cada quilômetro registrado no painel, não há muito problema em ter um carro rodado.
É por isso que para muitos entusiastas e algumas marcas, um carro com alta quilometragem rodando em pleno funcionamento é motivo de orgulho. Afinal, ele representa a qualidade da engenharia daquele produto. Volvo e Mercedes-Benz, por exemplo, mantém programas de certificação para carros com alta quilometragem, os chamados “high mileage clubs” ou “high mileage certificates”. Nesses programas, os carros bem conservados com alta quilometragem são submetidos a inspeções feitas por oficinas autorizadas e recebem um certificado e medalhas que são afixadas à sua grade.

Então, se você é o tipo de motorista dedicado à manutenção e atencioso com seu carro, que sabe a hora de acelerar, a hora de pegar leve, não precisa consultar a tabela Fipe nem fazer as contas (e muitas vezes comprometer uma boa grana mensal) para trocar de carro só por que você acha que ele está muito rodado. A menos que você esteja preocupado com a desvalorização — mas também não haverá muito o que fazer, afinal, ele já estará desvalorizado. Com exceção dos números de seis dígitos no odômetro ele certamente não dará sinais dessa alta quilometragem e você pode continuar curtindo seu amigo de quatro rodas como fez desde o primeiro dia com eles. São apenas números.
http://www.flatout.com.br/voce-tem-medo ... seu-carro/
Kick, dá uma relaxada









