Do Auto Esporte

Ford Mustang X BMW Série 4 (Foto: Charlie Magee)
O novo Mustang vai ser vendido no Brasil como qualquer outro Ford, o que nunca tinha acontecido nos cinquenta anos de vida do mais famoso esportivo americano. E, apesar de se adivinhar um preço bem acima do praticado nos EUA, a versão 2.3 Ecoboost ficará abaixo de concorrentes europeus com mais ou menos a mesma potência, como o BMW 435i. É um choque de culturas: de um lado, um esportivo que nasceu para tornar a performance acessível ao comum dos americanos e agora também do resto do mundo; do outro lado, um produto alemão de luxo, que assenta a sua reputação na engenharia sofisticada. Em comum, está a potência muito próxima, com 314 cv, para o Mustang 2.3 Ecoboost e 306 cv, para o 435i o que lhes dá acelerações 0-100 km/h pouco acima dos cinco segundos. Na teoria, os dois se aproximam, mas e na prática?..
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Beverly Hills
Este confronto foi realizado em Los Angeles, onde o Mustang foi apresentado à imprensa global, com as fotografias tiradas logo ao nascer do sol em Beverly Hills, um dos mais ricos bairros do mundo. Alertado pela câmara de vigilância de sua casa, um dos habitantes locais não hesitou em vir à rua, vestido de “shorts” e chinelos, só para ver o novo Mustang. Passou pelo BMW sem reparar nele e pegou o volante do Ford para uma “selfie” dizendo: “tenho de comprar um desses. Meu filho iria adorar!” Fica claro que, apesar de ser um carro barato nos EUA ($25 170) o Mustang mexe com as memórias de muitos, até dos mais ricos.
Lado a lado, o Ford faz o BMW parecer pequeno e o seu desenho nostálgico, tendência que o modelo americano só passou a seguir há dez anos, tem imensos detalhes que prendem o olhar. Muito mais que o estilo limpo e clínico do Série 4. Cabe aqui dizer que a BMW de LA teve a gentileza de nos entregar o 435i na porta do nosso hotel, o famoso Sunset Marquis por onde passaram muitos dos grandes nomes da música rock e pop americana. O fato de ser uma versão Convertible e não um cupê, não causou nenhum problema, pois já dirigimos muitas vezes o modelo com teto fixo. Talvez a BMW estivesse esperando pelo Mustang Convertible, que deverá chegar aos mercados ao mesmo tempo que o fastback, mas ainda não estava pronto para ser testado.

Ford Mustang (Foto: Charlie Magee)
De volta ao comparativo, é nos habitáculos que o choque cultural realmente se concretiza. O BMW tem uma construção de topo, com materiais de referência, montagem meticulosa e elementos da maior sofisticação, como o i-Drive ou o head-up display. No Mustang, os plásticos são quase todos de qualidade mediana, alguns ficariam mal num Fiesta. A montagem tem falhas óbvias e os comandos da consola não são óbvios de manejar, apesar de muito mais básicos. A comparação do espaço interior também é uma surpresa, pois há menos espaço nos lugares da frente e os de trás são curtos e baixos, no Mustang. A verdade é que o Série 4 leva quatro adultos com mais conforto.

BMW Série 4 (Foto: Charlie Magee)
Downsizing ao estilo americano
O quatro cilindros em linha 2.3 Ecoboost do Mustang deveria ter substituído o V6 atmosférico de 3.7 litros, pois têm quase a mesma potência, mas existem os dois na base da gama americana, pois ainda há muitos clientes que preferem o som do V6. Com bloco e cabeça em alumínio, quatro válvulas por cilindro, dupla árvore de cames, variador de fase duplo, injeção direta e turbocompressor com entrada dupla, o novo 2.3 Ecoboost é uma unidade moderna, que debita 314 cv/5500 rpm e atinge um torque máximo de 44,3 mkg/3000 rpm. O motor do 435i tem tudo isso e acrescenta dois cilindros e sistema Valvetronic. Chega aos 306 cv entre as 5800 e as 6000 rpm e o torque máximo é de 40,8 mkg entre as 1200 e as 5000 rpm. Ou seja, faz mais regime máximo e tem uma curva de binário muito mais plana

Ford Mustang (Foto: Charlie Magee)
Na “interstate”
Mas o motor 2.3 Ecoboost começa por desiludir pelo som vulgar, muito longe do imaginário dos mais potentes Mustang. É certo que mostra elasticidade desde regimes baixos, sem muito tempo de resposta do turbo e a caixa manual Getrag de seis marchas, apesar de firme não é imprecisa. A posição de dirigir é boa, apesar de o volante ser grande, melhor ainda no Mustang testado que tinha bancos Recaro. A suspensão tem um bom nível de conforto, nos pisos imperfeitos, fazendo da circulação nas largas ruas de LA ou nas “intersates” uma tarefa fácil e até com um certo “glamour”. Mesmo com pessoas habituadas a ver os melhores e mais caros carros a circular nas suas ruas, em LA os olhares elogiosos para o Mustang foram muitos.

BMW Série 4 (Foto: Charlie Magee)
Pela razão de existirem tantos BMW nesta cidade, o 435i parece invisível, ninguém olha para ele. Mas, ao volante, o condutor sente maior agilidade, que não vem só do tamanho inferior mas do superior rigor da direção e do câmbio, neste caso a brilhante ZF automática de oito marchas. A suspensão só parece mais firme porque é melhor controlada e o condutor pode escolher vários modos de dirigir (Eco Pro, Comfort, Sport e Sport+) que também alteram o amortecimento. No Mustang também há diferentes modos de dirigir (Normal, Sport, Track e Wet/Snow) que alteram o acelerador, ESP e direcção, esta pode depois ser regulada individualmente em três níveis. A verdade é que, no BMW, sentem-se mais as diferenças entre os vários modos, que no Mustang, onde os modos são todos muito parecidos.
Montanha acima
Fora de LA, a caminho das montanhas, o 2,3 Ecoboost rapidamente mostra que prefere os regimes médios aos mais altos, onde lhe falta “ar.” Não é raro deixá-lo chegar ao “red-line” sem querer, pois acima das 5500 rpm já não tem muito mais para dar. Como o torque máximo de 44,3 mkg chega às 3000 rpm, a faixa de utilização em condução esportiva não é muito grande. Pelo contrário, os seis cilindros do 435i têm uma incrível vontade de subir de regime, além da imbatível suavidade, nos mais baixos. Nem parece um motor turbocomprimido, a debitar força até às 7000 rpm. A sensação que dá é a de ter bastante mais potência que o Mustang. Mas a verdadeira questão está no peso: o Ford pesa mais 100 kg.
Pela primeira vez, o Mustang tem uma suspensão traseira multibraço e o resultado é um comportamente neutro. Quando se exagera, é a frente que começa por deslizar e não se pode contar com a traseira para compensar muito esse efeito. Mesmo muito provocada com o acelerador, fica sempre agarrada ao asfalto, apesar de a suspensão macia deixar a carroçaria oscilar bastante. E estamos a falar de uma unidade equipada com o Performance Pack, que inclui suspensão mais firme, relações de câmbio mais curtas e travões maiores e que será equipamento de série fora dos EUA.

Ford Mustang X BMW Série 4 (Foto: Charlie Magee)
No 435i há mais opções para o estilo de dirigir: mais sereno, em modo Comfort, com excelente controlo da carroçaria ou mais atrevido, em modo Sport+ com uma atitude sobreviradora que não custa a provocar e é fácil de controlar. Muito mais divertido.
A verdade é que, não é só no estilo que o Mustang é nostálgico. De alguma forma, o seu acerto dinâmico também remete para as memórias que os compradores possam ter dos Mustang mais antigos. Quanto ao Série 4, é claro que é melhor em tudo, em algumas coisas é mesmo muito melhor. Mas é bem mais caro e não tem uma coisa difícil de definir e de que o Mustang está cheio: carisma.
Vencedor: BMW 435i
O Mustang é um carro de estilo nostálgico e cumpre muito bem esse papel mas o motor 2.3 Ecoboost não o faz brilhar como esperava. O 435i tem muito menos carisma mas é melhor em tudo o resto, diversão de dirigir, incluída. Entre a exuberância americana e a excelência alemã é esta última que mais me convence.

Fotos: Ford Mustang 2.3 EcoBoost X BMW 435i
Fonte: http://revistaautoesporte.globo.com/Ana ... -435i.html





















