
Colaborando há quase dois anos nas avaliações de Um Mês ao Volante, Alberto Trivellato, da oficina paulistana Suspentécnica, dificilmente se empolga com os carros submetidos a sua minuciosa análise. Experiente e acostumado a dirigir o que de melhor existe na produção mundial — para ele, "pesos-pesados" como Cayenne, Q7, Range Rover e X5 são velhos conhecidos —, assumiu o volante do Fiat Freemont com seu calibrado senso crítico, o que não impediu uma crescente admiração para com a "cria" da parceria entre Chrysler e Fiat.
Ao longo das 18 colaborações à seção, aprendemos que quando seu percurso padrão se estende, ou há algo de muito ruim ou... de muito bom! E felizmente foi esse o caso do Freemont. Já de início o colaborador elogiou o silêncio de marcha e a posição de dirigir. E, naquela tarde em São Paulo, Alberto fez questão de realizar uma versão longa de seu trajeto.
"Quer achar defeitos?", questionamos. "Não, quero confirmar qualidades".
Ao cabo de quase uma hora, ao voltar para a oficina, a melhor palavra para definir o Freemont na visão de Alberto foi "surpreendente". Disse ele: "Não esperava encontrar algo assim. Já conhecia o Dodge Journey e percebi que o Freemont realmente mereceu um atento trabalho de afinação geral. Gostei de ver como ele se comporta nas diversas situações a que o submeti".
Alberto se refere a um variado repertório de simulações: em vez de desviar das irregularidades, mira nelas. Dá pequenos socos no volante, golpes no acelerador, freadas curtas, longas, escolhe lombadas e valetas e as cruza em ângulos diversos. O ouvido afiado pelas décadas no ofício detecta ruídos e os identifica. De fato, o Freemont o cativou pelo bom conjunto geral, onde nada é excepcional, mas tampouco medíocre, e no qual o destaque é a homogeneidade.
"Há carros que custam o dobro desse e que não proporcionam esse conforto e nem tamanho silêncio. Falta uma pegada mais forte ao motor? Talvez, mas acho que ele atende à proposta dedicada à família. É certo que na estrada será necessário mais espaço para a ultrapassagem, mas não há nada de crítico na escolha desse motor. O funcionamento é suave e até mesmo o câmbio automático de quatro marchas, nessa condição de uso urbano, me pareceu de acordo", ele analisa.
A admiração se estende aos resultados rodoviários da viagem até Santa Catarina: "Quase 10 km/l para um carro de quase duas toneladas, andando perto dos 120 km/h? Tá ótimo!". De volta à oficina, a observação das entranhas do Freemont mantém a avaliação de Alberto em alta.
"É sem dúvida um carro bem projetado e bem construído. Arrisco a dizer que nesse projeto há uma boa herança da época em que Chrysler e Daimler eram parceiras, e no qual a Fiat deu o tempero final. Olhe como é a suspensão dianteira!", diz Alberto, apontando o subchassi fixado ao monobloco mediante elementos elásticos. Outros pontos de observação são os robustos braços da suspensão McPherson fixados por grandes coxins, a grossa barra estabilizadora, o amortecedor de haste de bom diâmetro.
Alberto pede para um funcionário chutar com força um pneu dianteiro e nos mostra a movimentação do braço de suspensão: "Olhe como ele mexe. Esse movimento significa conforto, pois absorve irregularidades. Mas, se fosse exagerado, significaria também um mau comportamento em curva. Nesse carro, conseguiram aliar conforto e boas qualidades dinâmicas, o que não é nada fácil".
Outro aspecto positivo apontado por Alberto é a semiárvore bem paralela ao solo, assim como os braços de direção, o que proporciona uma geometria próxima do ideal. E a observação da parte inferior do motor — cujo cárter, apesar de não contar com protetor, está bem distante do solo — faz o colaborador nos relembrar das "provocações" a que submeteu o grande Fiat em seu giro: "Lembra como ele não 'afunda' em excesso em frenagem e também não levanta demais a frente em aceleração? A prova disso está na ausência de marcas de contato com o solo aqui na frente. Quando raspa algo, raspa esse plástico aqui", e aponta para um pequeno defletor quase na ponta do para-choque. É fato.
Olhando a suspensão traseira, Alberto revela que "é um sistema multibraço diferente de todos que já vi. Olhe esse braço inferior, como é longo, assim como o superior. Isso ajuda a roda a 'copiar' melhor o terreno, o que favorece o equilíbrio". Ainda ali, o especialista aponta a previsão da fábrica para tração integral: o espaço deixado livre para o diferencial traseiro, que na versão de tração dianteira é ocupado pelo sistema de escapamento.
De volta à superfície para análise da carroceria, porta-malas e cofre do motor, o colaborador faz notar bons detalhes construtivos como o capricho das guarnições das portas, os robustos coxins da tampa traseira e o bom acabamento geral da carroceria, com frestas regulares entre portas, capô e monobloco e detalhes como soldas e junções de chapas. A observação do motor revela ordem e, mais do que isso, um detalhe mais comum em carros de alto desempenho ou preparados: a barra de amarração que une as torres dos amortecedores dianteiros.
Ao cabo de duas horas, Alberto Trivellato revela que sim, o Fiat Freemont entra em sua lista de carros que compraria. Ao lado de tudo aquilo que viu e sentiu em termos técnicos e dinâmicos há uma qualidade muito especial, o preço adequado.
"Não há no mercado muita oferta de carros tão espaçosos, versáteis, modernos e com esse nível de equipamento e acabamento por R$ 90 mil. A Fiat deve cuidar para que não haja problemas que poderiam minar a carreira desse bom carro, como peças caras demais ou difíceis de encontrar. Ele me surpreendeu pelo comportamento e projeto. Há muita gente comprando carros bem inferiores a esse e pagando bem mais caro", conclui.
http://bestcars.uol.com.br/mes/fiat-fre ... cision.htm









